Recordações da Pátria Amada
Assim é a memória do povo. Da sociedade pronto-a-
-vestir a que nos convertemos em oitenta e seis. Assim é o nosso Moçambique, enfiando-se permanentemente na gaveta dos pendentes, à espera da sábia orientação dos falsos moralistas.
E como não poderia deixar de ser, dos inevitáveis grupos desanimadores, no desemprego por estes dias, que pregarão a boa nova de que os preguiçosos ficaram em casa por falta de pureza ideológica. Mas até não. Estiveram também na rua, para recolher os seus mortos e os dos outros, limpar as latrinas e os quintais, procurar gasolina, pão e muitas outras coisas que se transformaram repentinamente em éter, quando o comércio virou um cemitério de prateleiras vazias, como nos tempos do proletariado. Algo de que os grupos desanimadores nunca se haveriam de lembrar, por terem despensas bem recheadas e tanques 4×4 Deluxe atestados para vulgares passeios de duzentas milhas aos fins-de-semana. E neste rame-rame rasteja a nossa classe média amedrontada. Enquanto a classe baixa simplesmente grita, tumultua e morre em nome da Pátria Amada. Em vão.